A inconsistência da particularidade virtual: entre conceitos e perfis, limitar-se é autodefinição

Estamos continuamente condicionados à socialização. Por natureza, somos seres comunitários e associativos. É do caráter humano a necessidade de mostrar-se e ser-se visto, analisar fatores de convivência, comparar-se aos demais e classificar-se. Com o “boom” tecnológico do terceiro milênio e o advento das redes sociais virtuais, torna-se cada vez mais visível a relação entre a identidade individual e a imagem que esta passa em seu meio. Constantemente, selecionamos informações nossas para que sejam vistas, curtidas e julgadas pelos demais conectados mediante critérios de inclusão e exclusão sociais, que definem a partir do que dizemos ser, pensar e agir, a nossa personalidade. Ser e mostrar parecem confluídos na mesma semântica: sou aquilo que posto, posto aquilo que quero ser.

Gradualmente, fazemos a transferência dos valores reais para o meio digital. Nunca se foi tão fácil saber algo sobre alguém: seus gostos, opiniões, locais por onde passou e sentimentos que sentiu. A liberdade de conhecer o outro funde-se ao aprisionamento da própria expressão – tanto nos é dada a possibilidade da invasão, como nos é negada a nossa privacidade. Todavia, vale ressaltar que o exposto só assim o é, após um processo de edição e montagem, onde unicamente a foto perfeita e a frase genial merecem destaque e publicação. Negamos a essência que nos forma, e substituímo-la por um projeto de marketing pessoal figurado em perspectivas comuns, arbitrário ao que consideramos ser real, e, como num teatro de fantoches, atribuímos o valor da nossa personalidade à reação do público. Tal mecanismo de autopropagação tanto é infiel como falho, muito confiamos na aparência idealizada que não percebemos o quanto expostos ficamos e como essa exposição excessiva pode ser prejudicial. Esfarelamos nosso caráter em 140 caracteres difusos, à medida que objetivamos a nossa situação-sujeito em troca do olhar alheio. A notificação é a urgência que nos tange, o prazer que nos comove. Perdemos o contato físico, nos prendemos à ilusão da conectividade eterna; estamos sempre próximos, mas nunca reais.

Temos tudo, mas ao mesmo tempo não temos nada | Foto: ilustração

Temos tudo, mas ao mesmo tempo não temos nada | Foto: ilustração

O desejo da anulação da solidão emocional é o veículo de agregação que carreia mensagens e compartilhamentos na tentativa vã de completar-se na sombra da presença constante do outro. Não obstante, a solidão não finda; percebemos que mesmo unidos na rede, somos apenas uns homens, poucos e nunca contentes, esperando o olhar que não vem ou o comentário que não atualiza. A solidão social até que se suprime, porém poucas são as realidades dentro do contexto individual que conseguem conter a solidão emocional, dar a estabilidade e o conforto pessoal e ser completamente plenas. Num mundo paralelo onde é fácil e vantajoso ter milhares de amigos, poucas vezes podemos esperar a ação agente, sem incitar a provocação. Ainda que tudo pareça confidencial, o fantasma da inércia social está lá à vista de todos, mesmo que contradigamos nossas atitudes, montemos novos cenários e construamos mais um novo espetáculo a ser aplaudido.

Ser olhado deixou de ser perda da particularidade, do limite de contato entre o outro e a subjetividade, para ser mérito invejável e propagandeado daquilo que queremos mostrar. Exibimos nossas façanhas à base de um teatro construído para a exposição, na tentativa desesperada de não nos reconhecermos sós, ou pior, de não nos reconhecer em que somos ou de sermos sujeitos diminuídos a nada. A forma como o mundo nos olha é a punição diária que temos e é a razão da existência virtual. A forma como nos mostramos ao mundo é o que dirá se servimos ou passamos como mais um entre tantos uns. Diante da plasticidade momentânea da aparição, flashes cada vez mais rápidos, atualizações cada vez mais instantâneas, nós pagamos alto para ver e sermos vistos.

Rivaldo Júnior

Poesia por nascença, filosofia por necessidade, artista por conceito, estudante de medicina nas horas vagas. Trago na cabeça uma canção de rádio e a sentença que recebi de berço: viver é a maior conformação.
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