O namoro de Temer com Bolsonaro no “Caminho do Futuro”

Michel Temer passará a faixa presidencial a Jair Bolsonaro daqui a algumas semanas e então terá de encarar dois processos criminais na Justiça, um por corrupção, outro por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, ambos nascidos de delações friboianas.
 
No horizonte do emebista há mais duas acusações à vista, uma de enredo odebrechtiano, outra de raízes antigas e profundas no Porto de Santos. Se bem que estas dependem de Raquel Dodge não chegar à conclusão de que o padrinho de sua nomeação como PGR também merece aquela alcunha dada pela turma da Odebrecht ao tucano Geraldo Alckmin, “Santo”.
 
Diante desses rolos, a aposentadoria promete ser inglória para o mais impopular mandatário da história nacional. Em Brasília, há quem se pergunte se já haveria em alguma gaveta por aí um pedido de prisão preventiva de Temer a partir de janeiro. Mas, e se ele de algum modo puder contar com o futuro governo para salvar-se da forca?
 
Disposição para colaborar com o bolsonarismo Temer tem, como vários dos grupos apoiadores do impeachment de Dilma Rousseff que acabam de fracassar nas urnas, PSDB à frente, também têm. E, no caso de Temer, a reciprocidade está no ar.
 
Na quarta-feira 7, o ex-capitão reuniu-se no Palácio do Planalto com o presidente em fim de mandato. Em seguida, deu uma declaração enigmática ao lado de Temer. “Se preciso for, a partir do ano que vem, voltaremos a pedir que ele nos atenda. Porque tem muita coisa que continuará. O Brasil não pode se furtar do conhecimento daqueles que passaram pela Presidência, que será útil a todos nós.”
 
Será que Bolsonaro cogita ter Temer por perto? Seria um bom negócio para ambos. O atual governo bota seus aliados para aprovarem ainda este ano algo da reforma da Previdência, desejo do anunciado ministro bolsonarista da Economia, Paulo Guedes, que pede uma “prensa” no Congresso. Em troca, Temer contaria a partir de janeiro com, digamos, boa vontade governamental, quem sabe um foro privilegiado, para encarar a Justiça.
 
Como CartaCapital noticiou, um membro do comitê de campanha de Fernando Haddad foi alertado dois dias após o primeiro turno da eleição de que as principais peças do QG petista eram alvo de uma espionagem arquitetada por um ministro de Temer, o general de pijama Sérgio Etchegoyen, chefe do GSI. Essa vigilância tinha por objetivo ajudar Bolsonaro.
 
Uma das recompensas do ex-capitão pela ajuda do GSI seria garantir algum tipo de salvo-conduto a Temer no futuro.
 
No meio da campanha, o presidente gravou dois vídeos desaforados contra Alckmin e um contra Haddad. O primeiro veio a público na véspera da facada em Bolsonaro. Os outros dois, horas antes do atentado. Em Brasília, há quem tenha visto aí um sinal de Temer a seus aliados: estamos com Bolsonaro. O MDB tinha um candidato, mas era de faz de conta, Henrique Meirelles, dono de apenas 1,2% dos votos válidos.
 
Conhecido o resultado final do segundo turno, um sorridente Temer despontou na tevê quase ao mesmo tempo que Bolsonaro. Ofereceu-se para tentar aprovar a reforma da Previdência e prometeu facilitar tudo na transição de governo.
 
A equipe bolsonarista da transição, umas 30 pessoas com salário de até 16 mil reais, foi nomeada na segunda-feira 5 pelo Planalto, com nomes indicados pelo time do presidente eleito. No grupo, nenhuma mulher. E um condenado em 2011 por estelionato, Julian Lemos, também acusado de bater em duas, na irmã e na ex-mulher, entre 2013 e 2016.
 
Lemos coordenou a campanha do ex-capitão no Nordeste. Após a mídia lembrar o currículo policial dele, o vice-presidente eleito, general de pijama Antonio Hamilton Mourão, disse que Lemos não estará no futuro governo. Ah, bom. E o que será que Mourão acha das mesuras de Bolsonaro com alguém como Temer?
 
No fim de 2017, o general dizia que o presidente só tinha escapado de ser afastado e processado no escândalo JBS/Friboi graças a um “balcão de negócios” no Congresso. Em fevereiro, defendeu que o Judiciário deveria “expurgar da vida pública” certos políticos, Temer incluído.
 
De lá para cá, a situação do emedebista piorou. No mês passado, o delegado Cleyber Malta Lopes, da Polícia Federal, concluiu investigações no setor portuário e incriminou Temer por corrupção, quadrilha e lavagem de dinheiro. Raquel Dodge, a PGR, tem de decidir se o denuncia à Justiça.
 
O inquérito da PF foi aberto para averiguar se um decreto de maio de 2017 com regras bondosas a empresas portuárias foi baixado pelo presidente em troca de grana recebida no passado. O delegado escarafunchou mais de 20 anos de ligações de Temer com duas companhias atuantes no Porto de Santos, Libra, cujos donos são financiadores de campanha de Temer, e Rodrimar, de um amigo do presidente, uma história conhecida dos leitores de CartaCapital.
 
Em 31 de outubro, dirigentes do Porto foram presos pela PF em uma operação contra fraudes em algumas licitações em tecnologia da informação, dragagem e consultoria. Entre os alvos, o presidente da Codesp, José Alex Botelho de Oliva, no cargo desde o fim de 2015 por indicação de emedebistas, e o diretor de relações com o mercado, Cleveland Sampaio Lofrano, escolhido por um fiel de Temer, Edinho Araújo, ex-ministro dos Portos.
 
Oliva foi do Ministério dos Transportes quando a pasta era comandada, no governo FHC (1995-2002), por Eliseu Padilha, atual chefe da Casa Civil de Temer. Padilha é outro encrencado nos tribunais. Quando perder o foro privilegiado garantido pelo cargo, responderá a juízes de primeira instância. Ou ele vai arrumar outro cargo com foro?
 
Na véspera da conversa entre o presidente atual e o eleito, Padilha comentava com interlocutores no Planalto que Temer tentará reassumir o comando do MDB para levar o partido a adotar, na gestão do ex-capitão, uma postura de independência colaborativa.
 
Na declaração ao lado do sucessor, Temer disse que, da parte do governo, a disposição desde já é de “colaborar intensamente”, não “uma colaboração apenas formal, mas uma colaboração verdadeira”. Ele até convidou Bolsonaro para ir com ele em algumas viagens ao exterior.
 
Por exemplo: uma cúpula do G-20, o grupo das 20 maiores economias do mundo, marcada para o fim do mês na Argentina, o vizinho em crise devido ao neoliberalismo que caracterizou o governo Temer e que é a segunda pele de Paulo Guedes.
 
No pós-governo, segundo Padilha, Temer quer usar a influência sobre os emedebistas da Câmara dos Deputados, locus histórico de sua atuação política. Dele e de um velho sócio, Eduardo Cunha, deputado cassado em 2016 e corrupto condenado a 15 anos de prisão em 2017.
 
Bolsonaro e equipe dão sinais que sugerem que o ex-capitão irá valer-se de uns métodos cunhistas para montar a base governista na Câmara. O núcleo de apoio ao ex-capitão na Câmara é a Bancada do Boi, da Bala e da Bíblia, uma obra de Cunha.
 
A chamada bancada BBB saiu forte das urnas este ano, mesmo diante da renovação de 52% dos deputados na eleição. Além disso, Bolsonaro e seu principal negociador político, o deputado gáucho Onyx Lorenzoni, do DEM, anunciado como futuro chefe da Casa Civil, não querem negociar apoio com as cúpulas partidárias. Preferem pescar no varejo, outra metodologia cunhista.
 
A propósito, Rodrigo Maia, correligionário de Lorenzoni no DEM, gostaria de seguir no comando da Câmara em 2019. Paulo Guedes agradece. Maia é tão liberal quanto ele.
 
Bolsonaro e Cunha têm afinidades. O emedebista elegia-se pelo Rio, como o capitão da reserva. Na campanha de 2014, foi o terceiro deputado mais votado do estado e lamentou assim não ter tido uns votos a mais: “Tenho um forte eleitorado evangélico, que não me faltou. Mas perdi muitos votos para o Bolsonaro”.
 
No comando da Câmara, entre fevereiro de 2015 e maio de 2016, Cunha forçou a mão para levar adiante a redução da maioridade penal e o fim do estatuto do desarmamento, duas ideias caras ao bolsonarismo.
 
Cunhismos e temerismos à parte, no dia da conversa entre Temer e Bolsonaro o MDB aprovou um documento interno facilitador do colaboracionismo com o presidente eleito. Intitula-se “O Caminho do Futuro”, uma espécie de versão atualizada daquela papelada que desde o início norteou o governo Temer e deu-lhe feições neoliberais, a “Ponte para o Futuro”.
 
“O resultado das eleições mostrou que a sociedade rejeitou quem se propôs a retroceder e fazer o caminho de volta ao passado. Foi, entre outras coisas, um claro veredicto sobre as políticas econômicas da era PT”, diz o texto. Exagero.
 
O bolsonarismo escondeu suas pretensões econômicas na campanha, devido à impopularidade delas. Guedes dizia que essa “não é uma eleição sobre economia, é sobre valores”. Claro, não ficaria bem dizer na eleição que Bolsonaro aprofundará o desmonte da legislação trabalhista iniciado por Temer. Há exato um ano, entrava em vigor a reforma trabalhista.
 
O governo prometia 2 milhões de vagas novas, mais até aqui surgiram 380 mil. Bolsonaro avisa que o IBGE tem de mudar o jeito de medir o desemprego, hoje em 12,5 milhões. E que vai acabar com o Ministério do Trabalho. Bem que Lorenzoni avisou: quem mandou as centrais sindicais pregarem o voto contra o ex-capitão?
 
Segundo o documento do MDB, os últimos 30 anos foram de crescimento econômico decepcionante. Nem parece que o partido apoiou todos os presidentes nesse período, com exceção de um hiato esquisito com Fernando Collor (1990-1992). E agora o MDB está pronto para aderir ao neoliberalismo radical do “Posto Ipiranga”, inimigo declarado dos rumos gerais do País nas últimas três décadas.
 
“Se o novo governo restaurar a confiança nos rumos da economia e aprofundar as reformas estruturais que sinalizem o ajuste fiscal de longo prazo, em pouco tempo os agentes privados voltarão a investir e o crescimento vai se acelerar”, diz o documento. Estranho.
 
Com Temer, não faltou confiança dos agentes, entusiasmados com a ortodoxia da Fazenda e do Banco Central, com reforma trabalhista, com congelamento de gastos por 20 anos. Faltou foi crescimento, no ritmo de 1% em 2017 e 2018.
 
Para Guedes, os últimos 30 anos foram de hegemonia “social-democrata”, da “centro-esquerda”. Ou seja, ele acha a Constituição de 1988 progressista demais, uma cantilena antiga entre conservadores antipáticos à ideia de saúde universal e gratuita, de rede pública idem, de assistência social generosa com a maioria pobre.
 
Bolsonaro também é uma negação da “Constituição Cidadã”, nascida para enterrar a ditadura militar que o ex-capitão acha que matou e torturou pouco e para desenhar o tipo de sociedade que o País buscaria construir dali em diante. Seria Bolsonaro uma figura “inconstitucional”, devido ao que ele projeta com seus pontos de vista, flagrantemente contrários ao espírito de 1988?
 
Na terça-feira 6, ele participou de uma sessão solene no Congresso em alusão aos 30 anos da “Constituição Cidadã”, completados em outubro. Ouviu recados do presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e de Raquel Dodge para que se cumpra a Constituição. E comentou que assim o fará: “Na democracia só há um norte, o da nossa Constituição”.
 
Se na Câmara Temer é promessa de colaboracionismo do MDB com o futuro governo, no Senado é um pouco diferente. Reeleito para mais oito anos, o experiente Renan Calheiros trabalha para ser o presidente da Casa de novo e fazer dela um bunker de resistência ao bolsonarismo.
 
Presidente interino do MDB desde a licença de Temer, o senador não reeleito Romero Jucá tem dúvidas sobre se o governo Bolsonaro dará certo. “Vamos ter de avaliar lá na frente. Por isso é preciso ter calma, responsabilidade e posicionamentos claros”, disse, após divulgar o novo documento partidário.
 
O MDB continua com a maior bancada do Senado e quer fazer valer o direito de seguir no comando da Casa. Na quarta-feira 7, o presidente Eunício Oliveira, MDB do Ceará, surpreendeu e botou em votação o aumento de 33 mil para 39 mil no salário dos juízes do Supremo Tribunal Federal e da PGR. São aumentos que vão puxar reajustes similares de Norte a Sul para juízes e procuradores, com impacto estimado em uns 4 bilhões de reais por ano.
 
Bolsonaro estrilou. Em vão. A lei foi à sanção de Temer, que já tinha combinado o jogo com o STF. Agora os supremos juízes estão, digamos, mais à vontade para peitar o futuro presidente, aquele cujo filho caçula, Eduardo, o deputado federal mais votado da história do Brasil, acha que para fechar o STF bastam um soldado e um cabo.
 
Outro nome que desponta como candidato a presidente do Senado, um locus em que a resistência ao futuro governo tende a ser maior do que na Câmara, é o de Tasso Jereissatti, do PSDB do Ceará. No tucanato, parceiro do MDB no impeachment de Dilma e no fracasso eleitoral este ano, há grande afinidade neoliberal com Paulo Guedes e disposição para encampar a agenda econômica do futuro governo, como no caso da reforma da Previdência.
 
Arminio Fraga, chefe do programa econômico tucano em 2014, mandou uma proposta de reforma a Guedes recentemente. O problema dos tucanos são as questões morais e comportamentais do bolsonarismo, como a liberação das armas e a “guerra cultural” contra as universidades federais, por exemplo. É real o risco de o partido rachar. Uma briga a opor o maior vencedor tucano neste ano, João Doria Jr., eleito governador de São Paulo, contra figuras históricas do partido, como FHC e Tasso.
 
Doria Jr. vestiu o figurino “bolsodoria” já na campanha, sem dar bola para o candidato do partido a presidente, Alckmin. Em seu primeiro pronunciamento após eleito, comentou, em claro sinal de apoio ao ex-capitão: “A partir de 1° de janeiro, no meu PSDB, acabou o muro. Não tem mais muro. Este será o novo PSDB, um partido que tem lado”.
 
Na quarta-feira 7, ele foi a Brasília e repetiu a dose em um almoço com deputados federais tucanos e depois de um encontro com Bolsonaro. “Disse ao presidente que o PSDB de São Paulo não fica em cima do muro, tem lado. E o lado do PSDB de São Paulo é o Brasil.
 
Então, ele que conte com o nosso apoio.” “Se o PSDB apoiou o Temer, por que não apoiar o Bolsonaro, que será um governo mais novinho?”, pergunta um deputado tucano que não se reelegeu. Novinho, no caso, significa virgem do ponto de vista ético.
 
Doria Jr. tem sido estimulado a tomar o poder no PSDB. O presidente atual tucano é Alckmin, que em 2016 brigou por Doria Jr. com a velha guarda tucana, agora acha o pupilo um traidor e resolveu atuar contra a adesão ao futuro governo.
 
No Senado, corre que Tasso e o paulista José Serra vão deixar o PSDB na hipótese de o partido mergulhar de cabeça no bolsonarismo. Dias atrás, em Portugal, FHC comentou que o ex-capitão fará mal para a imagem do Brasil no exterior.
 
A reação nas redes sociais de um deputado tucano de apenas 36 anos, Fabio Souza, de Goiás, dá uma ideia da crise no ninho. Ele tachou o comentário do ex-presidente, de 87 anos, de “patético” e tascou: “Tenho respeito pelo FHC, mas não sabia do seu poder de futurologista”. É por essas e outras que The Economist decretou a morte política dos tucanos na eleição: “Muitos dos antigos apoiadores do PSDB mudaram para o agressivo nacionalismo conservador de Jair Bolsonaro”.
 
Aderir ao bolsonarismo, como fazem Temer e o PSDB que não fica em cima do muro, foi o jeito que a turma do impeachment derrotada nas urnas achou para se reinventar e permanecer no poder.
 
(fonte: Carta Capital)

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