A decadência política e a miséria da razão

Olhando para a decadência política, cada vez mais acomodada no meio social, é possível concordar com Theodor Adorno (filósofo alemão) quando este afirma que não necessariamente a síntese dialética representa evolução/avanço, condição de um estágio progressista de civilidade. A propaganda eleitoral é uma fiel expressão disso!

De um lado, situacionistas vomitam o que fizeram. A música é agradável e as pessoas estão sorrindo. De outro, oposicionistas dizem que está tudo errado, que há corrupção e que podem fazer diferente. A música é fúnebre e as pessoas não mais sorriem.

Nessa antítese (se é que podemos considerar como) nivelada no subterrâneo, preguiçosa e tocada por sentimento de torcida, está isento do debate qual Brasil queremos, precisamos e podemos construir. As questões mais amplas, densas e profundas inscritas na totalidade social, na essência, não são alçadas por este tipo de reflexão imediatista e espontâneo.

Ilustração: Fernando Vicente

Ilustração: Fernando Vicente

Não se discute, por exemplo, como enfrentar as bases políticas, econômicas e sócio-culturais que renovam, incansavelmente, o estigma escravocrata, a condição de colônia e a posição de periferia dependente dos países de centro que impactam diretamente nas desigualdades sociais e segregação social no Brasil.

A miséria da razão e o irracionalismo, como já mostrava Carlos Nelson Coutinho (filósofo político brasileiro), são expressões próprias de um tempo decadente. O “pó” das ruínas de um capitalismo que, dentro dos limites impostos pela sua lógica sociometabólica, sociabiliza representações precárias, parciais e caóticas da realidade. Como os resquícios dessa práxis fetichizada atinge os fundamentos da vida social, no plano político isso não seria diferente.

O abandono da mediação dialética como propulsora do debate mais denso e o apego às formas de representação imediatistas do que se busca apreender, quando usados como substância da prática política, são cômodas para a burguesia e só a ela interessa. Jean-Paul Sartre certa vez afirmou que: “o importante não é o que fizeram de nós, mas o que vamos fazer daquilo que fizeram de nós”. Se estivesse vivo, talvez o filósofo francês se decepcionasse com o pouco que estamos fazendo.

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